Carne Fraca


Arrasto-me na montanha pela noite que me engole. Horas a fio, aos tombos, e lentamente a pingar sangue. Viro-me. Mil olhos atravessam a escuridão. Seguem-me ao longe, cheiram o meu rasto. Lobos esfomeados, mas pacientes. Hesitantes, talvez. Não se atrevem a atacar.

Descendo pela floresta densa, rebolo com a massa muscular a ceder às feridas. O braço deixa de doer, o sangue para de correr. A profunda dentada sofrida horas antes no posto fronteiriço irá fazer o que lhe compete.

Carne azul, podre de morte. Nem os lobos me querem. Mas seguem-me, curiosos por verem algo tão desnatural a atravessar o seu território.

A lucidez vai-se aos poucos. Deixo de ver, de sentir, de pensar. Já não sou eu. Sou outra coisa. 

*

A alcateia cerca então o vale, rodeia o corpo abatido, não lhe dando opção de fuga. Com o lobo alfa num frente a frente, outro animal se impõe, e duas íris amareladas levantam-se do chão. Ambas as criaturas mostram os dentes.

Agora, de olhar arregalado, é ele que ataca. Corre para o lobo de boca aberta, fecha-a sobre o pescoço dele e rasga-lhe a jugular.

Agora, é ele o alfa.



Conto publicado na Fábrica Do Terror:

https://www.fabrica-do-terror.com/contos/carne-fraca/